UNDER THE SKIN
Estudo de condição, condição de estranho...
Começamos de fora para dentro, Glazer apresenta-nos as condições da experiência que criou - Sermos observados ao observar. Ao olharmos somos mirados de volta.
As fronteiras da nossa esfera pessoal primária são testadas, e somos estimulados a abri-las, saindo da nossa sem dar conta.
O laboratório - Primeiro movimento, de fora para dentro:
Desejos instintivos, a fome. Queremos carne e isso diz algo sobre nós, o que nos domina. A mesma é instrumento e destino.
Ela apropria-se da humanidade de uma mulher como tantas outras, reduzida a uma função, atrair alimento. Quem são realmente?
A resposta existe quando o pensamento é provocado, porque pensar sobre o humano é conhecê-lo.
Inocentes, a sereia abre-se para entrar-mos. Seguimos o nosso desejo, mesmo em ambiente desconhecido, afogando-nos na profundidade do que nos consome, arriscando a nossa pele para ter a carne de Vénus.
A fome passa a curiosidade, contacto após contacto. Vamos além da missão que marcou o início, o tempo agora corre pela segunda camada dérmica.
Ela despiu-se, mas ninguém lhe toca...
O laboratório - Segundo movimento, de dentro para fora:
Circula entre nós com fome de conhecer, mas só a posse nos intriga, uma fome superficial. Porque comer não é conhecer, mas pode ser o seu início, a vida para além da(s) fome(s) começa quando nos libertamos da carne.
A experiência dela, há algo mais aqui... não é que o desejo seja mau, talvez apenas não seja sua a função de ser reduzido a um impulso vicioso. Então, não se trata de satisfazer o desejo, mas sim de deixar que nós o satisfaçamos, que ele «tire» isso de nós, reconhecendo-se para se conhecer.
Tive de sair para conseguir voltar, pode ser sobre isso... afinal, a pele prende-nos ao que esperam dela, veda a expressão do nosso interior.
Isto faz-me pensar na pele do estranho, o ignorado. Desconhecemos a nossa própria atração, e talvez seja isso que o irrita. Somos seres de pele simples, mas complexos além desse cobertor.
Ela, usa o feminino como a canção de uma sereia, mas elas são feias, seduzem-nos para o sonho enquanto queremos sair do pesadelo, tal como nos deleitamos com a pele, mas fugimos do corpo, não quando está nu, mas descoberto, um alien que se deita no frio da própria aversão que causa. Ele, também alienado, pelo seu exterior, tem a humanidade no interior que ela quer tocar.
Os dois partilham o mesmo frio, desejando o mesmo calor, é isso que os liga, empatia. Sobre este reconhecimento bilateral, ela expõe-se como igual, sendo vista como é.
A descoberta do segredo profundo faz da predadora uma presa para os seus «iguais», e ela talvez tenha descoberto algo sobre os seus que pode levar á extinção dos sistemas de subsistência que são, de quem?
Soma, espelho privado e self - Auto-determinação da humanidade feminina:
O sinal mais visceral, comida torna-se repulsiva enquanto a perceção se aproxima de uma humanidade que emancipa quem sempre foi serviçal, perigo que a coloca em perigo. Nasce daí o segundo sinal, ela sente medo e percebe-o como tal.
Este sinal humano é captado como parte da mulher, humana que precisa de ajuda.
A atração animalesca apresenta-se humanizada (integrada), sentida por um homem contido, todavia, sensibilizado. Ele dá abrigo, calor de quem cuida, espaço para se conhecer a intimidade privada.
Este terceiro sinal, exploração da pele refletida que nos reveste, mas que não reflete o «ser», ainda mais quando roubada. Exploração que expande possibilidades, sendo a sexualidade algo que excita, de facto, o interesse, ás vezes do corpo, outras da mente, desta mesma forma no ativo e no passivo, mas sempre em construção conjunta.
Já não há segredos, e o motivo de ela ter fugido do abrigo é ambíguo... só entende a pele quem a veste «efetivamente», pode essa ter sido a conclusão dela.
A verdade pode ser demasiado para o indivíduo, e isso ganha ainda mais peso quando contactamos com aquelas que estão fora da nossa natureza, sendo essa a dúvida da E.T.: O que são estes seres?; o que sou eu para eles?
Deixam de haver camadas e este torna-se o «conflito» central, da natureza original com a natureza roubada. Terá, esta última, entranhado no íntimo alienígena?
Finalmente, ela entende as lágrimas que abriram esta experiência, agora na sua própria pele. Ela era fria, gélida, e o calor do seu convívio connosco fez o gelo derreter.
A pele é rasgada, revelando a reação do explorador nefasto, criando-se simultaneamente um momento de reflexão para a alienígena nua que, aqui, entende o que usou para esconder o que realmente é, passando-se por uma mulher que é ser singular e sente grande parte do que a protagonista sob a sua pele sentiu...
E porque «uma imagem vale mais que mil palavras», ciente do aprisionamento que define a sua existência, opta por se incinerar enquanto instrumento condenado, libertando-se e reclamando uma individualidade auto-determinada. O fogo dá lugar á pureza, arrefecido pela neve.